Para além do medo; O impacto da narrativa da IA nos programadores
by Valter Barros
Introdução
Antes de qualquer coisa gostaria de deixar claro que utilizo IA todos os dias no meu trabalho, como por exemplo: claude, cursor, copilot, dentro de IDEs como cursor e vscode, não sou de forma alguma uma pessoa contrária à IA. O meu intuíto é tentar enxergar o todo de forma consciente sem aquele véu de animação/desânimo com tecnologia X ou Y que às vezes pode nos cegar. Inclusive o post atual foi feito com ajuda de IA. 😀
Neste post, compartilho os conhecimentos que reuni nos últimos anos a acompanhar de perto o universo da IA. O foco aqui não é o funcionamento técnico da tecnologia, mas sim o futuro dos programadores perante estas mudanças. Vamos falar sobre como nos preparar e, principalmente, sobre como o marketing agressivo da Inteligência Artificial foi construído — e de que forma essa narrativa impactou o psicológico e a carreira de profissionais por todo o mundo.
Quero também trazer a importância do questionamento e o fato disso ser um dos pilares da área de programação e os perigos de silenciar isso.
O marketing do medo
É impossível abrir o linkedin ou youtube (sendo programador e os algoritmos sabendo disso) e não ver vários vídeos falando sobre o fim dos programadores e de outras profissões, bem negativo. Isso que estamos vendo é o que podemos chamar de marketing do medo e pode ser explicado por: as empresas de IA dependem bastante de investimentos externos, é fácil ver isso pelos aportes bilionários feitos nos últimos anos, contudo a maneira encontrada para justificar todo esse investimento foi: substituição do quadro de funcionários das empresas por IA.
Uma coisa que acho que movimenta muito e reforça essa ideia e mantém esse medo no ar é o fato de CEOs de grandes empresas como; nvidia, amazon, openIA afirmarem que em X meses/anos/dias a IA vai substituir todo mundo, apesar de alguns hoje estarem voltando atrás como é o caso do Jenssen huang CEO da Nvidia que falou que para os próximos anos vamos precisar muito de programadores.
Links anteriores com pessoas influentes falando sobre o fim dos programadores:
Apagão dos devs
Como citei anteriormente com todo o marketing do medo que foi feito em torno da IA, isso acabou minando a popularidade da IA, segundo o próprio Jenssen huang CEO. Muitas pessoas da área de programação estão migrando para outras áreas ou mesmo abrindo seus próprios negócios utilizando a IA, muitos *sass* estão surgindo nessa onda. Mas o que vai acontecer quando começarmos a ter um déficit de programadores? Corremos o risco de no futuro termos o que pode ser chamado de “apagão dos devs”.
Conteúdo relacionado:
- Apagão de devs: Fala sobre uma possível falta de profissionais na área de programação em um futuro próximo, exatamente por conta do marketing negativo em torno da IA, que foi disseminado ao longo desses anos.
Por que não podemos questionar a IA?
“Os pitagóricos consideravam a geometria um mistério sagrado. Revelar a diagonal impossível era expor os segredos dos deuses. Hípaso foi punido por questionar o dogma.” — Adaptação livre sobre os relatos de Jâmblico (em A Vida de Pitágoras).
Acredito que, junto ao marketing do medo, veio um silêncio quase obrigatório. O questionamento foi praticamente banido: virou aquela regra velada do 'só fale se for algo positivo'. Com isso, corremos o risco de repetir a história, onde opiniões contrárias não são bem-vindas. Tendemos a cair na falsa realidade de que já estamos totalmente evoluídos — o que, na verdade, costuma ser uma falácia para ofuscar, esconder e punir pontos de vista diferentes.
O questionamento é a nossa base, nós criticamos linguagens e frameworks abertamente todos os dias, seja em fóruns, no code review do trabalho ou na conversa de bar com amigos. Sabemos que javaScript tem seus problemas, que ruby on rails tem cenários onde não brilha e que nenhuma tecnologia é uma bala de prata, tudo na engenharia de software tem prós e contras, vantagens e *trade-offs*.
Porém, quando o assunto é inteligência artificial, parece que a crítica virou um tabu, por que não podemos falar abertamente quando ela erra? Ou quando um serviço puramente humano é muito mais interessante, seguro e eficiente para determinado momento? Entendemos que a IA é uma ferramenta incrivelmente poderosa, mas tratá-la como algo inquestionável é perigoso. Tentar mostrar apenas os prós e ofuscar os contras mostra uma tentativa de esconder uma insegurança da própria tecnologia.
Empresas podem até chegar a demitir ou cortar de processo seletivo pessoas muito boas tecnicamente por pura e simplesmente discordarem de pontos relacionados a IA ou por não serem 100% a favor da tecnologia como se a perfeição já tivesse sido atingida. E isso não é algo que nos leva a uma evolução na área. A ideia de perfeição não existe ainda mais se tratando de modelos que se baseiam em estatística.
Não seja “o do contra”
Antes falei sobre o valor do questionamento e como é negativo silenciar isso, mas agora quero falar que devemos saber como questionar, e devemos nos basear em dados para isso, e não criticar por criticar ou por medo da tecnologia tomar nosso emprego. A IA veio para ficar, mesmo com o valor dos tokens subindo ou possíveis problemas no futuro já é uma realidade que faz parte da nossa rotina de trabalho, dito isso imagino que não vamos ter um rollback e voltar a fazer o trabalho como antes.
O Scott Galloway fala que a IA não vai tomar seu emprego, porém alguém usando a IA sim, por isso é importante nos adaptarmos e usar a ferramenta para aumentar nossas possibilidades.
Conteúdos relacionados:
- Tokens mais caros que salários: executivo da NVIDIA revela paradoxo financeiro da IA: Executivo da nvidia falou sobre custo benefício da IA comparando IA vs funcionário.
- The mind-boggling valuations of AI companies: Acordos Multimilionários e Circularidade: A OpenAI (que estuda abrir capital com uma valoração de US$ 1 trilhão) firmou uma série de contratos massivos com parceiros de nuvem e hardware, incluindo US$ 100 bilhões com a Nvidia, US$ 250 bilhões com a Microsoft e US$ 300 bilhões com a Oracle. Essa rede de transações cruzadas gera preocupações sobre o risco de uma bolha financeira, onde a falha de uma empresa poderia desestabilizar todo o ecossistema.
E agora para onde vamos?
Diante de tudo isso, para onde estamos caminhando? Com o passar do tempo, o valor de escrever código de forma puramente mecânica está diminuindo — afinal, a IA já consegue fazer isso por nós. No entanto, ela depende crucialmente da nossa curadoria. O jogo mudou: nada de enviar um prompt e deixar a ferramenta commitar direto. O valor real agora está no ceticismo, na validação e na revisão criteriosa do que é gerado.
Com essa mudança, infelizmente o programador perdeu algumas funções que sempre fizeram parte do dia a dia, como escrever código, resolver problemas e muitas vezes ficar travado em algo por horas tentando resolver até finalmente ter aquela felicidade de finalmente encontrar o motivo de um bug, hoje com a IA, boa parte dos problemas podem ser resolvidos com alguns prompts, isso acaba gerando um sentimento de que a área pode não fazer mais sentido para alguns, em um post Martin Fowler aponta que as IAs estão mudando a área e algumas coisas que gostamos deixarão de serem feitas, porém outras que nem sabemos vão começar.
Conteúdos relacionados:
- Se você ama escrever código… tenho más notícias: Fala sobre a perda de interesse pela área de programação pelos devs, pois geralmente gostam muito da parte técnica e de escrever código, porém com a IA essa tarefa passa a ser menos necessária com o passar do tempo. Os devs estão se tornando um executivo de código julgando o que a IA gera. Perguntas como por que usar tal arquitetura ou outra? Precisam ser feitas Porém, ainda é importante entender o código.
- Engenharia de software acabou de mudar pra SEMPRE: Como o mercado de engenharia de software está mudando e o que podemos fazer para se adequar, pois o trabalho do programador não será apenas fazer tarefa e criar *pull request*.
Conclusão
Pessoal, é isso.
Espero que esse texto ajude de alguma forma. Realmente estamos vivendo um momento de muitas incertezas na nossa área e sendo bem sincero, praticamente não dá para saber como será o dia de amanhã.
Porém, o nosso maior escudo contra essa ansiedade é aprender a identificar o que é baseado em fatos, evitando o que só tem a intenção de chocar, gerar pânico e atrair atenção. Mantenham o senso crítico afiado, continuem questionando as ferramentas e foque em ser bons engenheiros de software.